Saudade

março 29, 2016

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Hoje acordei e me lembrei desse texto que escrevi ao longo de algum tempo, após a morte de meu pai, ocorrida há 11 anos. Hoje a saudade ainda existe, mas mais mansinha…

……….

 

Agora ele não está mais aqui, embora se faça presente em todos os cantos da casa: a ponta do sofá onde se sentava antes de adoecer. O quarto onde ficava depois de doente. O canto ao lado do piano onde sua cadeira de rodas era estacionada. Sua prancheta de trabalho onde ele executou, com perfeição, uma caixa sextavada que eu precisava e procurei, desesperadamente, durante um dia inteiro e que ele confeccionou em um par de horas. O quadro que pende na parede sobre o piano, um peixe que traz em suas escamas a beleza do traço de seu desenho. A tapeçaria com o mesmo motivo, bordada por minha mãe. Alguns recados escritos por ele há mais de cinco anos, quando ainda dominava sua mão direita com maestria. O meu coração, trespassado de saudade e que eu espero cicatrizar logo. Olho seus retratos, que meu avô tirou dele bebê e criança e, mais tarde outros dele em seu trabalho, sorridente, aos trinta e poucos anos. Ao lado do primeiro neto, orgulhoso e feliz! Como esquecer a segurança que ele sempre passou a nós todas e que continuo a buscar em cada homem que conheço? E pior de tudo, mesmo sabendo que ainda nos reencontraremos um dia, viver até o final de minha vida sem sua presença e ao mesmo tempo tão presente em mim! Essas sensações me acompanharão sempre, para sempre, meu pai!

Ainda choro quando leio o parágrafo acima, que escrevi um ano e pouco atrás, logo após sua morte. Hoje a casa está um pouco mudada. Não há mais piano, trocamos algumas tapeçarias de lugar e, de vez em quando, mudamos nossas fotos nos porta-retratos distribuídos no aparador. Hoje uma foto dele ao lado de meu tio Luiz, numa festa de aniversário deste, me traz recordações de seus gestuais. A cada semana minhas irmãs me lembram suas frases básicas, repetidas quando havia a oportunidade, sempre com uma verve humorística sofisticada.

Ele se foi há seis anos, mas a cada dia sua lembrança se faz presente, não apenas nos retratos espalhados pela casa. Olho minha sobrinha mais nova, Valentina, e penso como ele se apaixonaria por ela, tão parecida com a mãe, Inês, e mais ainda com meu avô, Eduardo, pai dele. O mesmo prazer na boa mesa… Minha mãe, às vezes, acorda à noite, chamando por ele, talvez depois de um sonho. Todas as vezes que comemos caqui ela lembra que ele gostava da fruta. E assim vamos caminhando, dia a dia, lembrança a lembrança… Agora estamos em paz, mesmo com a falta que ele faz.

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